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16/07/2019 - 17h05

Citopatologia em destaque no Farmacêutico em Foco

“Os laudos citopatológicos podem mudar a vida de uma pessoa e, portanto, a responsabilidade do profissional que assina cada exame é imensa”, diz Lisiane Mezzomo, entrevistada nesta edição do Farmacêutico em Foco, que aborda os aspectos necessários para atuar com citopatologia.  

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Citopatologia em destaque no Farmacêutico em Foco

Lisiane Cervieri Mezzomo é farmacêutica-bioquímica, especialista em Citologia Clínica pela SBAC-RS. Possui mestrado em Patologia Geral e Experimental e doutorado em Patologia: Biomarcadores pela Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).  Atualmente, é pesquisadora pós-doutoranda na Faculdade de Farmácia da UFRGS. 

Atua como farmacêutica-bioquímica-citopatologista na Policlínica Militar de Porto Alegre e é responsável pelo setor de Citologia do Laboratório Bios. É docente do curso de especialização em Citopatologia Diagnóstica da Universidade Feevale e assessora da Controllab. Confira a entrevista abaixo com a farmacêutica, que ressalta a importância da capacitação profissional para ingressar na área de citopatologia. “Sempre há espaço para bons profissionais. A demanda existe, e por enquanto, é uma área que não será substituída pela tecnologia”, diz. 

CRF/RS - Onde foi a sua formação e porque decidiu fazer Farmácia?

Lisiane - Sempre gostei de análises clínicas, e o desejo de atuar em laboratório surgiu ainda na infância, quando visitei um laboratório com a escola em que estudava, na cidade onde me criei, Soledade. Concluí a graduação em Farmácia-Bioquímica na Universidade de Passo Fundo (UPF), em 2004. Diferentemente da formação atual generalista, na época o curso era bem segregado, e as disciplinas de análises clínicas eram trabalhadas somente na ênfase, nos últimos dois anos do curso. Acabei me apaixonando pela microscopia logo no início do curso, pela disciplina de citologia e histologia, em seguida a Patologia. E posteriormente, na ênfase, tive a certeza que desejava atuar especialmente com microscopia.

 

CRF/RS - Como foram as etapas da entrada na especialização em citologia?

Lisiane - Na faculdade tive apenas uma disciplina de citologia clínica, que englobava de uma forma geral citologia de líquidos corporais, análise da urina, espermograma e muito pouco de citologia oncológica. Me identifiquei com a área ainda durante a disciplina, mas percebi que precisava aprender e aprofundar mais. Fiquei sabendo que na época a SBAC tinha um curso de especialização na área, e não tive dúvidas que era isso que deveria fazer assim que finalizasse o curso de graduação.

Iniciei a especialização em seguida ao término da graduação. Os módulos eram de uma semana por mês, e tínhamos que trazer microscópios para a aula. Como ainda morava em Soledade, viajava até Porto Alegre, de ônibus com o microscópio. Fiz essas viagens por dois anos.

Tomei conhecimento mais aprofundado do campo de atuação da Citopatologia durante o curso de especialização e vi uma grande oportunidade de trabalho. Na época, o Programa Viva Mulher (hoje chamado Programa de Controle do Câncer do Colo do Útero) do Ministério da Saúde estava se estruturando, e uma das diretrizes era a descentralização dos exames. O município de Soledade ainda não dispunha naquele momento da oferta dos exames, eram todos encaminhados a laboratórios de cidades vizinhas. Assim, iniciei uma parceria com o Laboratório Bios ainda durante a especialização. Estruturamos o serviço de citopatologia, que com muito esforço e trabalho se consolidou e hoje se destaca nesses mais de 15 anos de atuação na área.

 

CRF/RS - E teve alguma formação adicional?

Lisiane - Pensando em complementar os estudos na área, segui a formação acadêmica na pós-graduação stricto sensu, pois sempre mantive o desejo de atuar na docência, concomitante a atuação na rotina. Então vi no curso de Mestrado e posteriormente Doutorado em Patologia, uma oportunidade para continuar a minha caminhada. Hoje também atuo em alguns projetos na área como pesquisadora, dentro das atividades propostas pelo Pós-Doutorado da UFRGS o qual estou vinculada. Sugiro àqueles que se identificam com a área, mas ainda não sabem se desejam investir, a realização de cursos de extensão, que normalmente ocorrem em períodos reduzidos e abordam alguns aspectos gerais da atuação em citopatologia.

 

CRF/RS - O que mais lhe interessa nesse campo?

Lisiane - A citopatologia é encantadora. Sempre digo aos meus alunos e estagiários que não existe rotina, pois cada paciente e, portanto, cada lâmina é única e especial. Apesar de existir um padrão de normalidade e de lesões já descritas em manuais (que padronizam nossa atuação e os critérios estabelecidos para os diagnósticos), a atuação, atenção e experiência do observador são fundamentais para a liberação de um diagnóstico fidedigno.

Os laudos citopatológicos podem mudar a vida de uma pessoa e, portanto, a responsabilidade do profissional que assina cada exame é imensa. Perceber a importância do profissional que está por trás das lentes do microscópio certamente vai trazer mais qualidade aos laudos dos exames citopatológicos.

 

CRF/RS - Comente os desafios do trabalho em citopatologia.

Lisiane - Creio que o principal desafio da área é a busca constante pela atualização e pela qualidade do exame liberado. É uma área que exige muitas horas de microscopia, estudo e paciência. Antes de tudo, o profissional deve gostar de trabalhar com microscópio, e em algumas vezes, passar a maior parte do dia lendo as lâminas. Às vezes, muito tempo na mesma lâmina até chegarmos a uma conclusão.

Além disso, algumas vezes trabalhamos sozinhos. E posso falar pessoalmente disso, pois na maioria dos lugares que atuei, eu era (e continuo sendo) a única citopatologista.  Hoje em dia esse desafio é em parte superado pela tecnologia, que permite o compartilhamento de imagens em tempo real, o que ajuda muito, especialmente quando enfrentamos critérios limítrofes ou casos desafiadores.

Por fim, creio que um grande desafio também seja a má remuneração pelos serviços prestados, especialmente em virtude da desatualização da tabela do SUS. Esse fato leva muitas pessoas a desistirem da área, apesar de a implementação do setor de citopatologia ser, em geral, de baixo custo.

 

CRF/RS - E as possibilidades?

Lisiane - Eu atuo principalmente com citopatologia cervico-vaginal, que tem uma grande demanda em virtude dos programas públicos de rastreamento para o câncer do colo do útero. Sem dúvida esse tipo de exame corresponde a maior parte das demandas do laboratório de citopatologia. Em menor escala, trabalho também com citopatologia de outros sítios, o que também é interessante e diversifica ainda mais a rotina do laboratório.

 

CRF/RS - Há espaço para mais farmacêuticos ingressarem na área?

Lisiane - Sempre há espaço para bons profissionais. A demanda existe, e por enquanto, é uma área que não será substituída pela tecnologia (como sugerem alguns estudos em países mais desenvolvidos com as vacinas para o HPV - incluídas no calendário vacinal do SUS - e testagem molecular para HPV de alto risco, por exemplo). Entretanto, sempre friso que é necessário estudar, observar os critérios citológicos com paciência, e na dúvida, não hesitar em consultar os colegas. Também, o profissional deve fazer uma autoavaliação, utilizando, por exemplo, os programas de controle de qualidade, que avaliam o desempenho profissional.

A grade maioria dos farmacêuticos que buscam o curso de especialização no qual leciono, desejam incluir a citopatologia nas suas rotinas, aumentando as suas possibilidades de atuação. Esse fato demonstra o interesse dos farmacêuticos pela qualificação e a busca da diversidade dos serviços ofertados nos laboratórios.

 

CRF/RS - O que é necessário para isso?

Lisiane - Para atuarmos na área, é necessário um curso de especialização e muita dedicação.  Entender as sutilezas dos critérios morfológicos exige muito estudo. Além disso, um bom relacionamento com os médicos prescritores é essencial, pois são eles que nos confiarão suas solicitações.

[Conforme a Orientação Técnica do CRF/RS, “as normas do CFF sobre o tema são a Resolução CFF 401/2003, alterada pela Res. CFF 536/2010, podendo ser os egressos de Cursos de Especialização em Citopatologia ou Citologia Clínica de:

I – Instituições de Ensino Superior reconhecidas pelo Ministério da Educação (Resolução CFF 580/2013);

II – Cursos Livres reconhecidos pelo CFF (Resolução 581/2013)”]

 

CRF/RS - Tens experiência no setor público, privado e docência. Fale um pouco sobre os principais aspectos de cada setor, dessas diferentes experiências.

Lisiane - Trabalho na rotina em citopatologia há 14 anos, desde 2006, ano em que concluí o curso de especialização, e na docência na área há 11 anos, desde 2008. Nesses anos atuei no setor público e privado, fiz minha formação acadêmica em universidades federais e particulares. Também tive a oportunidade de trabalhar na docência com alunos de diferentes cursos de graduação e também pós-graduação. Foram muitos desafios ao longo dessa jornada, e também muitas conquistas.

Um aspecto convergente entre todos, e que sempre destaco, é a busca do profissional pela qualidade dos serviços prestados, tanto na rotina quanto na docência. Receber questionamentos é parte da rotina do profissional, assim como em qualquer outra área. Entretanto, o profissional preparado saberá como lidar com as situações e tirar proveito das críticas que porventura surgirem.


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